Wednesday, May 07, 2008



-Quero ir-me embora!
-Porquê Zé? Perguntei eu, fingindo surpresa. Afinal sabia, porque sou seu amigo de longa data, o que lhe ia pela alma.
- Epá estou farto desta mentira de país. Estou farto de tanta mediocridade!
O Zé era um tipo autêntico, dizia sem meias palavras o que pensava. Normalmente referia os pais como os grandes responsáveis por esta qualidade dizendo " não me ensinaram a mentir.Limitaram-me a oportunidade de ser um chico esperto, logo amputaram-me da mais importante qualidade socializadora aqui da terra. Caramba, nasceram aqui, sofreram na pele a exploração que hoje persiste embora com mais subtilezas, não os percebo". Abanava a cabeça como que resignado. Notava-se nos punhos cerrados que não.
-Então Zé, calma pá, isto vai melhorar.
Mentia...
- Ainda acreditas nisso?! És mesmo um anginho, ou então domesticaram-te!
Não era verdade. Também eu estava farto, também eu queria ir-me embora, também não acreditava que isto iria melhorar. " Está entranhado", dizia " primeiro, estranha-se, depois entranha-se, mas os espíritos livres nunca se hão-de habitual a isto e por isso vão-se daqui. É por isso que no estrangeiro ( ou na condição de) que melhor falam do país em que nasceram". Tinha razão! Estava a ler a propósito disto um escritor angolano, português, sei lá, o tipo parece que nascera cá e lá, pois conseguía mergulhar na mais funda perplexidade das gentes destes países ( e a perplexidade é o choque frontal com a realidade) e "nascer" é apenas uma sequência no tempo, nada mais, que a um dado momento do livro a propósito da visita de um personagem a Portugal escrevia," estive em Lisboa não mais de dois meses. Continua a ser uma bela cidade, mas nunca por mais de dois meses. Depois disso começamos a sentir a alma a obscurecer-se e reparamos que em redor todos estão assim, negros, ou brancos, ou talvez melhor, apagados por dentro." Esta constatação, se bem que sendo "literária", arrepiou-me!
- E quando não há esperança, o que é que achas que resta da vida?
Nada! Resta a rotina, resta um aborrecimento de morte e o fim dos sonhos. Alías sonhei até aos 25 anos ( a ironia da data), depois disso, nem pesadelos tenho. A morte da esperança sente-se como um luto, perdeu-se algo que sabemos não voltar, morreu-se também um pouco
- Sabes o que eu que eu fiz um destes dias?
- Não me digas que perdeste a cabeça com o teu chefe?
- Não. Vontade tinha eu de dar uns murros a esse idiota com a absurda legitimidade para ser um déspota. Não! Sabes o que fiz?
- Conta!
- Sai para a rua, comprei um spray, não para fazer um grafitti, ou um tag, muito na moda, que isso não sei fazer, mas o propósito foi o mesmo o de dizer " Olhem que estou aqui, ainda consigo respirar, sou eu no meio da multidão".
- Então, contas ou não?
- Escrevi: ESTE PAÍS É UMA MERDA! VOU-ME EMBORA! O ÚLTIMO QUE PUXE O AUTOCOLISMO!
Ri-me, lembrei-me das frases anarquistas que se escreviam há uns anos atrás cheias de humor e oportunidade.
- Tás maluco Zé?! E não foste apanhado pela bófia?
- Se fosse apanhado tenho toda a certeza que ele me ajudaria a reformular a frase: "ESTE PAÍS É UMA PORCARIA! O ÚLTIMO QUE LIMPE A LATRINA!!!"
- Tás cá um artista!
- Senti-me mesmo bem, acreditas?!
"As verdades da mentira..." a frase não me saia da cabeça. lera-a num blog. O tipo tinha posto alguém que caia no meio de uma multidão como se caísse num abismo, decorando desta forma o head da página. Desenhara também na personagem um coração vermelho, talvez ensanguentado, ferido, não sei. Sei é que achei aquilo tudo muito curioso e até original. Não parava de pensar que cada ser humano tem dentro de si uma indomável vontade de dizer "existo" mesmo apesar dessa existência ser por vezes a verdade de uma mentira!

Monday, April 28, 2008

LIVE FAST DIE YOUNG ( Parte I)

O Sid Vicious a lançar-se na multidão com o coração dilacerado pelo Amor e pela heroína,"live fast die young"! Foi o que fez, era o que nós também queríamos há 25 anos atrás.
Live fast die young...
- Epá arranja-me aí uns trocos para irmos a Caxias ver o Otelo.
Procurei um espaço alternativo, desta vez depois de umas cervejas na Trindade, "aterrei" no ZDB para uma "noite de punk rock". O sorriso condescendente do puto da porta certamente a pensar " o que é que este cota vem aqui fazer? Deve estar com uma crise nostálgica!"
- Bostik! Botisk! Vociferava o vocalista. Os gajos que tinham coragem de estar junto do palco, empurravam-se, socavam-se e cuspiam-se na cabeça. Bebiam garrafas de vinho, muitos já jaziam pelo chão talvez dos habituais "cocktails" da altura: alcóol com roypnol, uma espécie de "lobomotização" temporária, mas que em muitos deixou marcas irreparáveis... " o que é que eu estava a dizer?... já não me lembro!... ah...". Funcionava como uma espécie de "reset", uma formatação do cérebro, em suma, uma tipo morria por instantes. Talvez fosse o desejo de muitos naquele instante, naquela época, naquele ( neste) país que parecia não recuperar da imbecilidade. " Não há futuro para mim ;Não há futuro para ninguém;Não há futuro para ti; Não há futuro para ninguém!
"I get violent when i'm fucked up;I get silent when i'm drugged; upWant excitement, don't get none, i go wild", cantava o vocalista. A banda como ele, miúdos de 18,19,20 anos vestidos de preto, ténis ou botas de marca, em redor outros com a mesma indumentária, telemóveis na mão a filmar o "concerto"... atinados... "Don't use the rules;They're not for you, they're for the fools;And you're a fool if you don't know that; So use the rule you stupid fool ", estes gajos não se mexem, não gritam, não dizem asneiras nem partem garrafas?! Sou mesmo de outra época.
- "Viva o camarada Otelo, libertem-no já!" Gritava o gajo dos Kú de Judas. "Anarquia!!!" enquanto escorregava pela haste do micro num gesto trópego que exaltava ainda mais a assistência. "FP25 versus anarquia...um contradição do caraças Paulo, ou não?" Foda-se Zé, já não sei, qualquer coisa serve desde que esta merda mude, à bomba ou de outra forma"..."fuck you all; fuck this world; fuck everything that we stand for; Dont give into it all; dont exist; dont disgrace; dont ever judge me; i am the voice that makes you move; i am the voice that makes you move; i am the voice that makes you move; I AM THE VOICE THAT MAKES YOU MOVE RAAAAAHHHHHHH; fuck you all; fuck this world; fuck everything that we stand for."
O que eu e o Paulo mais gostavamos nos "concertos pela libertação do Otelo" era por serem "de borla", depois porque apareciam sempre cantores de intervenção, gajos que tinhamos ouvido em putos, na rádio, nos gira-discos dos nossos irmãos e depois porque que se fumavam uns charros... " experimenta este, é libanés!", " esta veio de Moçambique!"... "Quem canta uma alegria que não tem; Não conta nada a ninguém; Fala verdade a mentir; Cada alegria que inventas; Mata a verdade que tentas..."... o Paulo tinha um sorriso mefistotélico que quase fazia advinhar o de um guerrilheiro revolucionário com os seus ódios contidos... Eu imaginava, lutas, cantares guerreiros, poder popular e o fim da "burguesia e também o amor, a liberdade e as flores. "Devo estar pedrado!"; "Ó Zé Mário és o maior!!!"
O concerto acabou, lá fora os rumores do Bairro Alto, sou o tipo mais bêbado da sala. Os miúdos continuam "bem-comportados" ;" A ler Virgilio Ferreira?!" Diz-me uma miúda lindíssima junto à porta de saída, acerca do livro que levo debaixo do braço. Fico embaraçado, as mulheres embaraçam-me cada vez mais à medida que a idade avança e a beleza sobressalta-me, assusta-me... Sorrio " pois..." Apeteceu-me dizer-lhe, " estou a tentar, mas o gajo está com mais problemas existênciais que eu e estou a ficar farto de o ler". Aturar crises existênciais é chato, a Bitó era a miúda que nos aturava as nossas ( papél que as mulheres desempenham na perfeição), " epá, pois... não sei o que dizer-te, mas deixa estar, essa cena passa..." Passava com valium de manhã e um charro antes da aula de filosofia, " Paulo o que é que esta vaca gorda está a dizer?" " Sei lá, está a falar de um gajo que se chamava Kant, que parece ter passado muito tempo sem dar umas quecas, pois fartava-se de pensar", riamos até sermos expulsos da aula. Anos mais tarde sem surpresa soubemos que a "vaca gorda" pariu um assassino psicopáta! "Bolas ao menos, podia ter sido um Kant qualquer!", comentavamos.
Escorrego na calçada, sujo as calças, tenho sangue nos joelhos, "porra! estou mesmo bêbado". Cambaleio... " só entram casais" diz o porteiro do bar. Bolas! e eu que sou um tipo que só ando acompanhado comigo, " não admite tipos com distúrbios de personalidade, que julgam que vive dentro de si um homem e uma mulher ao mesmo tempo?!" O manhoso ri-se, diria que quase rosna, " Mais doidos, não!" Sigo para o bar ao lado, "posso?!" "10€!" Chulo! Lá dentro perco-me em meia dúzia de wiskyes e num olhos castanhos sem rosto...
Fora de horas, parecendo perdido, procuro os fantasmas que me fascinam e me amedrontam ao mesmo tempo!