
-Quero ir-me embora!
-Porquê Zé? Perguntei eu, fingindo surpresa. Afinal sabia, porque sou seu amigo de longa data, o que lhe ia pela alma.
- Epá estou farto desta mentira de país. Estou farto de tanta mediocridade!
O Zé era um tipo autêntico, dizia sem meias palavras o que pensava. Normalmente referia os pais como os grandes responsáveis por esta qualidade dizendo " não me ensinaram a mentir.Limitaram-me a oportunidade de ser um chico esperto, logo amputaram-me da mais importante qualidade socializadora aqui da terra. Caramba, nasceram aqui, sofreram na pele a exploração que hoje persiste embora com mais subtilezas, não os percebo". Abanava a cabeça como que resignado. Notava-se nos punhos cerrados que não.
-Então Zé, calma pá, isto vai melhorar.
Mentia...
- Ainda acreditas nisso?! És mesmo um anginho, ou então domesticaram-te!
Não era verdade. Também eu estava farto, também eu queria ir-me embora, também não acreditava que isto iria melhorar. " Está entranhado", dizia " primeiro, estranha-se, depois entranha-se, mas os espíritos livres nunca se hão-de habitual a isto e por isso vão-se daqui. É por isso que no estrangeiro ( ou na condição de) que melhor falam do país em que nasceram". Tinha razão! Estava a ler a propósito disto um escritor angolano, português, sei lá, o tipo parece que nascera cá e lá, pois conseguía mergulhar na mais funda perplexidade das gentes destes países ( e a perplexidade é o choque frontal com a realidade) e "nascer" é apenas uma sequência no tempo, nada mais, que a um dado momento do livro a propósito da visita de um personagem a Portugal escrevia," estive em Lisboa não mais de dois meses. Continua a ser uma bela cidade, mas nunca por mais de dois meses. Depois disso começamos a sentir a alma a obscurecer-se e reparamos que em redor todos estão assim, negros, ou brancos, ou talvez melhor, apagados por dentro." Esta constatação, se bem que sendo "literária", arrepiou-me!
- E quando não há esperança, o que é que achas que resta da vida?
Nada! Resta a rotina, resta um aborrecimento de morte e o fim dos sonhos. Alías sonhei até aos 25 anos ( a ironia da data), depois disso, nem pesadelos tenho. A morte da esperança sente-se como um luto, perdeu-se algo que sabemos não voltar, morreu-se também um pouco
- Sabes o que eu que eu fiz um destes dias?
- Não me digas que perdeste a cabeça com o teu chefe?
- Não. Vontade tinha eu de dar uns murros a esse idiota com a absurda legitimidade para ser um déspota. Não! Sabes o que fiz?
- Conta!
- Sai para a rua, comprei um spray, não para fazer um grafitti, ou um tag, muito na moda, que isso não sei fazer, mas o propósito foi o mesmo o de dizer " Olhem que estou aqui, ainda consigo respirar, sou eu no meio da multidão".
- Então, contas ou não?
- Escrevi: ESTE PAÍS É UMA MERDA! VOU-ME EMBORA! O ÚLTIMO QUE PUXE O AUTOCOLISMO!
Ri-me, lembrei-me das frases anarquistas que se escreviam há uns anos atrás cheias de humor e oportunidade.
- Tás maluco Zé?! E não foste apanhado pela bófia?
- Se fosse apanhado tenho toda a certeza que ele me ajudaria a reformular a frase: "ESTE PAÍS É UMA PORCARIA! O ÚLTIMO QUE LIMPE A LATRINA!!!"
- Tás cá um artista!
- Senti-me mesmo bem, acreditas?!
"As verdades da mentira..." a frase não me saia da cabeça. lera-a num blog. O tipo tinha posto alguém que caia no meio de uma multidão como se caísse num abismo, decorando desta forma o head da página. Desenhara também na personagem um coração vermelho, talvez ensanguentado, ferido, não sei. Sei é que achei aquilo tudo muito curioso e até original. Não parava de pensar que cada ser humano tem dentro de si uma indomável vontade de dizer "existo" mesmo apesar dessa existência ser por vezes a verdade de uma mentira!


